terça-feira, 12 de abril de 2011

SAUDADES DA VIDA



Escrever sobre atos de violência é sempre algo doloroso e ao mesmo tempo entristecedor, especialmente quando não conseguimos ao certo saber as razões que movem as pessoas ou a pessoa a cometer tal ação. Não vou me atormentar em querer entender o que um desequilibrado pretende ao matar friamente alunos dentro de uma sala de aula, apenas queria notar que entendo ser este fato, uma exceção na vida brasileira.
Gostaria de me ater as imagens, todas elas sem som, para alívio de nós observadores distantes, pois, se ver as crianças e os adolescentes correndo desesperados já é angustiante, ouvir se tornaria insuportável a uma pessoa normal. As imagens que se tornaram públicas são todas perturbadoras, mas de todas as imagens, a que mais me chamou a atenção, e provocou a escrita deste artigo, foi a de um garoto, caído no chão, sangrando com várias perfurações de bala pelo corpo, se contorcendo em dor e, com certeza, pedindo ajuda.
Um garoto jazia no chão, e as pessoas correm de um lado para o outro, policiais, facilmente identificáveis, e adultos homens e mulheres, que suponho sejam pais de alunos e mesmo funcionários da escola, todos meio atônitos, numa correria de um lado para outro, creio que a maioria dos civis naquele momento buscava encontrar alguém, filhos, netos, sobrinhos, amigos, e o garoto jazia ali, sangrava, e se contorcia.
Por mais incrível que pareça, o menino continuou no chão sem que ninguém, sem que qualquer pessoa parasse para oferecer conforto a ele, todos contornavam a dor, o sangue e o ser humano ali, como um simples obstáculo a ser transposto, a ser superado em meio ao caos estabelecido. Como observador distante, fiquei me perguntando qual a razão da indiferença, por que ninguém sequer se abaixou para falar com o garoto?
Se não encontro resposta para um louco ensandecido, me questiono e tento responder o porquê da indiferença com a dor do outro, e em verdade a única explicação que me chega é o quão banal é contemplar um ser humano sofrendo, não que sejamos cínicos, que aquelas pessoas atarantadas de um lado para outro o fossem, mas é preocupante a indiferença coletiva.
Em um livro clássico do início do século passado, Nada de Novo no Front, Erich Maria Remarque narra a vida nas trincheiras durante a Primeira Grande Guerra, e revela que homens quando postos em uma situação limite se transformam em algo próximo do semi humano, do quase humano, sem, contudo haver neles qualquer estado de desumanidade consentida ou desejada eram apenas homens que sofriam todos os dias a dor intensa de contemplar mortos, o risco constante. Quão indiferente é preciso ser para suportar a dor e a morte, com um esforço  sobre-humano no  início, se torna no passar do tempo um ato banal, recolher corpos em dor e mutilados, recolher cadáveres, pular sobre eles em campos de batalhas, usar estes corpos inertes e sem vida como escudos e barricadas, tudo se torna parte de uma rotina macabra em nome da sobrevivência e cada um luta apenas para sobreviver, para chegar vivo amanhã.
Remarque põe a mostra o pior do humano, seu  pouco caso com a vida, seu desejo de auto preservação quando exacerbado se revela pura omissão com o outro, as dores e a morte do outro se fazem banais, assim como comer, beber, dormir, acordar e lutar. Pareceu-me, e só me pareceu que todas aquelas pessoas, policiais e cidadãos olhavam, mas não viam o garoto sofrendo a sua frente, era mais um,  invisível o corpo jazia diante de todos e ali ficou até que os paramédicos chegassem. 
Esta não é uma crítica ao desespero e a consternação de todas aquelas pessoas que pulavam por cima daquele corpo inerte e em sofrimento, é apenas a percepção do observador de uma cena típica de uma sociedade violenta na qual a vida humana é um detalhe, onde no elenco de prioridades de cada cidadão, o outro é apenas uma citação aleatória, quase estatística, ou midiática, desconfio ser a violência um fato tão entranhado em nós que mesmo nos momentos mais terríveis, não sabemos restabelecer uma relação solidária com o outro, apenas nos esquivamos da sua dor e corremos para matar as saudades da vida que nunca mais teremos.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

PERDOAR




Ao tratar de um tema como este pode parecer que nos remeteremo à uma questão religiosa, porém eu não sou religioso ou teólogo para conduzir um texto nesta direção. A minha reflexão se pauta na nossa condição humana e na nossa herança cultural.

Somos sujeitos, homens e mulheres herdeiros de uma civilização baseada no perdão como elo elementar que nos une ao divino e ao outro que está ao nosso lado. A idéia mais simples do perdão é o ato de oferecer ao outro o esquecimento como forma de restabelecer laços, superar diferenças ou simplesmente reatar vínculos de afeto perdido.
Por trás desta idéia há o convencimento de que ao invés de alimentarmos o ódio e a dor corrosiva e lancinante, possamos encontrar dentro de nós um significado para a palavra paz; e todos os seres humanos sabem o quão difícil é, ao menos às vezes, encontrar esta paz para bem viver.
Em verdade, o perdão que conduz a um estado de paz é algo capaz de levar-nos a um estado de felicidade, sim, pois o perdão, seja ele ofertado a nós por alguém, sejamos nós a dá-lo a alguém, almeja-se um pretensioso estado de felicidade.
Entendo que nossa cultura plantou o perdão entre nós para nos dar a chance de superar o desejo do ódio, da raiva que leva a “guerra”, ao conflito, pois ódios e raivas são molas propulsoras eficientes na geração de rancores e mágoas na construção de falas e dizeres que muitas vezes servem apenas para deixar naquele que diz alivio e aquele que ouve sofrimento.
Perdoar é um ato de generosidade consigo e com o outro, mas também, um ato de esquecimento; e saber esquecer, o quê e como esquecer, é tão ou mais importante do que lembrar, a memória é em si, esquecimento e, ao operarmos a memória como imaginação ao recompormos o passado, recente ou remoto. Curiosamente a memória das dores, dos ódios parece sempre estar intacta, preservada sem nenhum lastro do imaginário, fundado na forte convicção de ser a memória algo límpido. As alegrias, os momentos de pura felicidade sempre vêm turvados prazerosamente pela imaginação, repleta de meandros e possibilidades muitas vezes esquecidas.
Quando não queremos esquecer, de fato não esquecemos, porém ao perseverar a lembrança dolorosa somos compelidos ao sofrimento, ao rancor, o passado se torna presente e incômodo, e a memória um fardo, o perdão, só ele pode aliviar este peso. Se não podemos esquecer a dor, e parece ser esta uma das características mais humanas, podemos nos esforçar para dar fim ao rancor e ao ódio e a tristeza que o abarca, perdoando.
Perdoar é ato de bondade conosco e de generosidade com o outro, pois se não podemos esquecer, o perdão permite a todos a chance, sim o perdão é a  chance de sermos mais dignos e mais humanos, ao dar a nós a oportunidade do esquecimento, e dar bondosamente dividir a paz com o outro.
Se fácil fosse perdoar, mais fácil ainda seria amar, e ambas são tarefas que somente o humano pode aprender e ensinar se quisermos podemos educar para o perdão basta querer lembra-se da razão que nos faz existir.

LEITURAS

Sugestão de Leitura:

Dostoievski, F. - Crime e Castigo, editora 34

Saramago, J. - O ano da morte de Ricardo Reis, editora Cia das Letras

Duas obras básicas para nos formar como sujeito.

domingo, 27 de março de 2011

PENSO, LOGO PORTANTO, NÃO EXISTO



         É cada vez mais difícil e caro viver em nossos dias, não sou e nem desejo o passado, mas o que hoje somos é algo tão espetacularmente diferente do que foram antepassados recentes, como os nossos avós, assim como com os nossos mais remotos ascendentes.
        A dificuldade em se viver o cotidiano se dá pela quantidade de novidades que rapidamente vão sendo incorporadas as nossas vidas e tornam-se imprescindíveis assim que habitam nossas vidas. Nem eu, nenhum homem ou mulher com 35 ou mais anos, acreditou na sua infância ou juventude que uma TV pudesse e precisasse ter 80, 100, 120 canais, ou mesmo que uma pessoa comum, para se sentir segura e mais aceita em seu ambiente social, profissional e até familiar, necessitasse ter dúzias de sapatos, há um século dois ou três calçados acompanhavam a existência de um ser humano, entre o nascimento e a morte.
         Poderíamos listar aqui uma quantidade imensa de coisas que fazem parte da nossa vida e que havendo algum bom senso e equilíbrio de nossa parte poderíamos simplesmente dispensar. Falo isto não porque sou sovina ou um chato que tem medo da modernidade, é porque há, é fato, um excesso, um exagero em nossas vidas.
         Por que precisamos de coisas aos pares, as dúzias, as dezenas e as vezes as centenas? Por que precisamos nos matar de trabalhar para ter coisas efêmeras e que muitas vezes mal conseguimos usufruir ou saber ao certo qual a sua finalidade cotidiana? E antes que digam que sou ranzinza digo que a internet e o computador pessoal são de longe a maior maravilha de todas, não imagino minha vida sem eles, é admirável poder fazer o que se faz combinando estas duas coisas, mas de verdade, para além delas não consigo me empolgar com nada mais, nem carros, nem celulares nada mais, até porque a internet me abre as portas para o conhecer de coisas que eu nunca poderia imaginar antes, ela é um simples consumo, um ter, um é um de fato.
         Diante desta avalanche de novas necessidades criadas em nossas vidas, educar continua sendo o que é, algo simples, entre dois sujeitos que por serem humanos e racionais pode acontecer, o que me preocupa de fato é que em meio a tantas coisas mais importantes para se ter, para se conquistar, para fazer  parecer ser alguém melhor, muito melhor do que somos, educar-se se revela algo destituído de significado aparente, afinal diferente de tudo que possa nos fazer parecer mais, gente educada não tem um letreiro na testa. E se você acha que isto é exagero, muito provavelmente não é negro, não é gordo, e se enquadra dentro de um padrão mediano de beleza e se assim for, você ainda consegue parecer ser alguém dentro destes padrões.
         Que valor pode ter a educação em uma civilização na qual você é aquilo que parece ser, e não aquilo que é? Estou convencido que educar só é ressonante para a maioria das pessoas se ela puder se transformar em status e puder com isso agregar a seu possuidor mais e “melhores” bens, e vai daí, que não falamos em bens como conforto e dignidade, mas em bens como acúmulo puro e simples.
         Tenho para mim que não sou nem romântico e nem poético com a vida, mas uma angústia me persegue, se não pudermos passar por esta existência e deixarmos como legado a bondade, a memória de termos sidos bons, o que restará, ao menos para aqueles que amamos e dividimos nossa existência cotidiana?  Se a prioridade em existir não for esta qual será? Ter duas dúzias de sapatos, vinte calças de marca, uma dezena de bolsas de grife, o celular de última geração e sabe lá Deus o que mais possamos listar em nosso inventário. Fato é, o único meio que temos para nos tornarmos civilizados e nos humanizarmos é nos educando, para além é claro o de viver em sociedade, e o que nós estamos fazendo? Comprando um punhado de coisas banais e fúteis para que possamos parece ser como desejamos, mas não conseguimos nunca ser.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Auto-Engano e a Banalização do Mal



         A sociedade brasileira se notabiliza pelo auto-engano, a capacidade coletiva e consciente de se acreditar o que de fato não é. No último século este país foi louvado por ter um povo pacífico, um lugar sem guerras no qual o caráter nacional era antes de tudo generoso. Tal “verdade” servia bem aos propósitos de um Estado autoritário que tinha como fim negar a cidadania a sua maioria.
         Hoje tal discurso parece mesmo objeto ideológico, um verdadeiro auto-engano, pois vivemos acercados pelo medo, pela certeza que os nossos concidadãos são bárbaros a espreita, prontos a nos trucidar a primeira chance, pelas razões mais insignificantes, um tênis, um relógio, um punhado de trocados.
         Fato é, e ninguém nega, que esta é uma sociedade violenta, muito violenta no qual a vida vale pouco ou nada, a tal ponto que banalizamos o mal e suas conseqüências entre nós. No limite, todos acreditam que boa parte dos nossos problemas são partes constitutivas de nós, ou melhor, de nossa sociedade.
         Esta crença reforça um novo auto-engano, de pior e a mais grave conseqüência para todos, qual seja: queremos reformar a lei, o aparato legal sem antes levarmos em conta os seguintes pontos, objeto central de todo auto-engano que hoje vivemos.
         Primeiro: a polícia no Brasil, para além de ser militarizada é uma instituição desacreditada, a maioria da população a vê, como instrumento da barbárie e não como parte legítima na defesa do cidadão.
         Segundo: as prisões são administradas pelo crime e não pelo Estado, assim sendo apenas se transfere a gestão do mal, para um espaço seguro que é o cárcere e não as ruas.
         Terceiro: ressuscitamos o esquadrão da morte, agora disfarçada de milícia urbana, que serve como ante-sala para o fim do estado de direito na sociedade, já que cidadãos comuns se armam e assumem funções de delegação pública.
         Quarto: o sistema judiciário, não precisa de leis, precisa ser confiável, ágil e responsável.
         Quinto: Auto-Engano é acreditar que se não atacarmos estes quatro pontos elementares, um punhado de novas leis, sejam elas de que tipo for, da redução da menoridade penal á adoção da pena capital nossos problemas serão resolvidos ou minimizados.
         Por fim, é sempre bom lembrar que sociedades que se regulam por processos conscientes de auto-engano, em algum momento acabam se esfacelando, mais que um tecido social frágil, fica-se querendo atacar os efeitos e nunca as causas. O auto-engano produz a desesperança por mover uma sociedade na direção errada, na qual as responsabilidades, os deveres e a consciência são sempre problema ou pertencem a outro, e nunca si.