quinta-feira, 24 de novembro de 2011

UM MUNDO DE ESPERANÇA



Um grande amigo me confessou, dias atrás, que dará uma guinada em sua vida, que mudará radicalmente o modo e a maneira como vive, como amigo me coube apenas apoiar, estender a mão e dizer que poderia contar comigo para tudo que precisasse.
Perto dos cinqüenta anos não é fácil impor mudanças profundas na vida, esta é idade deste meu amigo, assim como a minha idade, fiquei tentando encontrar palavras e força para estimulá-lo, para não fazer parecer que ele, depois de uma vida inteira dedicado a uma causa, virasse as costas a tudo e possa ser tomado por louco ou inconseqüente.
Refletindo me veio Nelson Mandela, fiquei imaginando um homem negro de mais de quarenta anos, condenado e preso a prisão perpétua em um país racista. Este homem saiu da cadeia com mais de setenta anos, e reinventou seu país sustentado em uma única convicção, a esperança.
Os céticos, os fracos e os pessimistas acabariam por sucumbir depois de quase trinta anos de cadeia, uma idade avançada e um mundo infinito de problemas pela frente, porém um homem tomado de esperança é capaz de recompor a realidade dentro de si, a limitação física pela idade, a tristeza por tantos anos de confinamento e as tantas batalhas a serem travadas para fazer o mínimo parecem barreiras intransponíveis, errado. O motor de tudo residiu na firme esperança de que tudo é possível quando assim se quer.
Quanta esperança pode haver dentro de nós? A esperança é do tamanho da nossa alma, quão maior ela é maior será nossa esperança. A alma de homens assim, é imensa, pois nela não cabe rancor ou hipocrisia, ressentimento ou vingança, quanto maior a alma maior a condescendência com o humano, a tolerância pelo amor e não pela conveniência oportunista.
Decididamente  eu não sei o que o futuro nos reserva, desconheço o que será de nós, e em especial deste querido amigo, mas creio profundamente que tomado da esperança de fazer algo melhor é possível mover o futuro em prol das nossas convicções e desejos. Uma alma grande, em um grande homem faz tudo parecer e ser pequeno diante do desafio cotidiano que é viver.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Como foi possível?


Existem livros que passamos anos esperando para ler, assim como bem falava Borges, nunca leremos certos livros por haver uma idiossincrasia entre o leitor e a obra. Esperei anos para ler A Origem do Totalitarismo de Hannah Arendt, passei um mês lendo o livro e dediquei horas em trechos espetaculares e ao mesmo tempo reveladores do ser político no século XX, um deleite.
Coincidentemente revi um documentário sobre a Segunda Grande Guerra, além do filme-documentário de Peter Cohen, Arquitetura da Destruição,  depois de tantos anos lendo e estudando sobre o nazismo e a ditadura stalinista uma pergunta me aturdia, como foi possível? Como? Como nos permitimos como civilização brotar e legitimar dois regimes que tinham como único fim a crueldade, a negação da vida humana? Como?
Que tipo de dialética é esta que nos revela a ciência como lugar de desvelamento e humanização, e os dois últimos séculos parecem sintetizar todas as nossas pretensões desde os gregos, inventamos, criamos e recriamos objetos, instrumentos e meios espetaculares, por exemplo, meu avô levou 53 dias no mar nos anos 1930 para poder cruzar o Mediterrâneo e o Atlântico entre Nápoles e Santos, antes de morrer, em fins dos anos 1960, o avião fazia o mesmo percurso em pouco mais de 11 horas! O que explica sermos capazes de gerar governos, movimentos e líderes que tinham como único projeto a morte, instrumentalizado pela ciência? Como?
Longe das minhas pretensões oferecer qualquer resposta, mas Hannah Arendt aponta que houve um conluio perverso e doentio entre a ralé européia e movimentos degenerados travestidos de político, mas com intuito de serem apenas movimentos, hordas de homens e mulheres capazes de dividir a condição humana em partes tão maniqueístas que nada poderia haver entre os puros e os impuros, nem sequer a memória de sua existência. Ao mesmo tempo em que isto é espetacular é horripilante imaginar a existência de um Estado, um governo e um movimento desejoso de suprimir a memória de todos aqueles que não eram toleráveis em sua lógica de horror.
Os comunistas liderados por Stalin fizeram sumir da história e da vida milhões de homens e mulheres, não havia exéquias, documentos, referências para os mortos nos campos de extermínio e nas prisões da polícia política. A palavra sumir é até leve diante do fato que um ser humano simplesmente desaparecer, física e humanamente, sua memória iconográfica, documental era simplesmente apagada da vida social, ou seja, determinado sujeito deixava de existir, ou melhor, o estado munido de seu aparato técnico fazia crer que determinado ser humano sequer um dia existiu.
Os nazistas, obedecendo a uma lógica industrial, apenas matavam, com requinte de crueldade e sadismo, como forma de fazer crer a cada um dos seres humanos, judeus, eslavos, ciganos, comunistas, homossexuais entre outras minorias que o problema era ele existir, o fato de cada homem ou mulher existir era um fardo para a humanidade. E estou convencido que uma parte destes seres humanos acreditava nisto, a ralé os convenceu que eles eram um estorvo imenso para a existência do nosso mundo. Exagero? Em filmes feitos pelos próprios nazistas antes da implementação dos campos de extermínio, vê-se homens e mulheres, descendo de um caminhão e correndo para uma vala onde deitavam sobre os mortos e soldados nazistas, sentados a  beira da vala atiravam, quando as valas enchiam eram fechadas e outras abertas, simples assim.
A partir daquele ponto todos aqueles seres humanos se tornavam nada, deixavam de existir, não como as pessoas normais que ao morrerem são homenageadas, reverenciadas e sua memória perpetuada de diversas formas pelos entes que a cercavam, neste ponto, todos sumiam, deixavam de existir, suas referências eram apagadas, seus nomes sequer eram pronunciados, objetos pessoais eram eliminados, os de melhor e maior valor apropriados pelos assassinos.
Como foi possível criarmos regimes políticos com tais características, ironicamente, o desenvolvimento da ciência e da técnica tornou possível que estes regimes se mostrassem eficiente no extermínio de seres humanos, não me incomoda este fato, mais do que a percepção de uma civilização disposta a ter a morte como fim e a negação do ser humano como meio, por mais que busquemos explicações sob ótica de um ser normal, tais regimes são inexplicáveis, ininteligíveis. Como foi possível? Como?

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Previsibilidade é Tudo que Queremos


Todo brasileiro, homem ou mulher com mais de trinta anos assim como eu terá mais facilidade em entender o que vou escrever neste blog. Sou de uma geração que nasceu, cresceu e chegou á vida adulta sem saber o que era uma vida previsível, ou seja, conhecíamos apenas o  presente, e mesmo assim precária e porcamente. Cresci em meio a uma inflação e uma crise econômica constante e ininterrupta por mais de trinta anos, quem viveu estes dias, meses, anos e décadas no Brasil entende o que digo, não havia futuro, pois as pessoas que viviam do seu trabalho sabiam apenas que hoje daria para comprar comida em determinada quantidade ou mesmo uma roupa ou um calçado, amanhã o dinheiro ganho com o suor do rosto não conseguiria pagar por aquilo que precisávamos, o valor do trabalho e das coisas inexistia.

O futuro era uma incógnita, uma aposta, pois se vivia em uma gangorra esperando que novo plano seria inventado para regular nossas vidas, lembro-me das vésperas do Plano Collor, a loucura das pessoas meio atônitas nas ruas no centro de São Paulo, entre a sete de abril e conselheiro Crispiniano, o Mappin e em outras grandes lojas os preços mudavam a cada três horas, e nada parecia fazer sentido, um frenesi meio apocalíptico que deu naquilo que todos sabemos, um plano maluco e um governo corrupto.
Em verdade este não é um texto das minhas memórias de juventude, é que refletindo sobre o crescimento de meus filhos e o como eles vivem hoje, me dei conta de como a vida ficou melhor, mais digna, menos imprevisível, e não é isto o que no fundo todos nós desejamos? A despeito de uma meia dúzia de certezas todas elas pouco felizes, a vida é um necessário caminhar pela rotina, pelo previsível.
Ouvir as pessoas no cotidiano faz crer que a maioria delas nega o quão feliz são em suas rotinas, na repetição de seu dia-a-dia,  quando no fundo o que a maioria deseja é uma vida previsível, não no sentido de saber o que será feito da rotina diária, mas sim, previsível por saber o quão possível a vida pode ser planejada, ordenada e pensada como algo posto sob o meu domínio. Os céticos dirão ser um enfado tal situação, pois bem, visite um país em guerra, uma nação que viva em hiperinflação e você irá entender de qual previsibilidade se trata aqui, mesmo em casos de desastres naturais, quando milhares ficam desabrigados ou impedidos de retornar as suas casas, o abatimento e a tristeza se apresentam por destituir a vida de um continum essencial.
As tragédias naturais ou as guerras são evidentes na transformação do previsível em imprevisível. Uma existência em descontínuo produz nos seres humanos o afloramento dos instintos mais básicos, o bom e velho Darwin sabia o que dizia quando traçou a evolução e as emoções humanas, sem poder pensar no amanhã como algo previsível, as nossas emoções e pensamentos comportam com insegurança, e me permito uma ilação, quando olho sociedades do terceiro mundo ou comunidades pobres em sociedades muito ricas parece evidente a propensão a violência. Sem a previsibilidade a vida cotidiana e o futuro, tudo se torna um presente eterno, desregrado e alimentado por ações que tem como único fim suprir o imediato. Não é preciso entrar em uma favela tomada por traficantes, em um grande centro urbano, para saber que aqueles que se acercam do negócio das drogas e todos que estão a sua volta resumem a existência a um presente sufocante, nada vai além do tempo que se vivi. A percepção de uma vida sintetizada em um presente contínuo demanda de cada sujeito o fim de qualquer previsibilidade, a vida é feita aqui e agora, nada mais desumano, nada mais infleiz.
Se não pudermos ter garantias mínimas de previsibilidade da vida, de quando poderemos casar, ter filho, passear, aposentar, comprar um velho objeto de desejo o que restará? A sensação de que a vida é um estado de permanente presente do qual se vive hoje para não haver amanhã, isto quase transformou gerações inteiras no Brasil em cínicos, pessimistas, com a existência e propensos a um estado de violência, se não física, uma violência emocional da qual estar vivo era o maior fardo.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Classificando a Mediocridade


Nos últimos anos me habituei a ficar irritado todas as vezes que saem publicadas as notas do ENEM e, por conseguinte, a classificação de todas as escolas brasileiras, as melhores, as mais ou menos, as piores e as horríveis.
Historicamente a escola brasileira nunca foi de fato avaliada, esta coisa de se ter uma prova de referência para nortear o final da vida escolar é, a bem da verdade uma grande novidade para nós, cabe perguntar se isto é bom para a nossa escola e a sociedade.
Para ser direto e honesto, sim, é muito bom se ter provas de aferição para medir o rendimento dos alunos e das instituições, por outro lado é deplorável o hábito de se fazer ranking das coisas, esta coisa de gringo, de norte-americano, os dez melhores isto, os cem melhores aquilo, é só abrir revistas e jornais dos Estados Unidos para vermos como eles adoram estas coisas, me questiono para saber se temos esta cultura competitiva e doentia com o ganhar sempre.
Se a prova é boa, mesmo com todas as suas limitações, por exemplo, literatura esta fora desta avaliação, o que, no meu entender, é um erro gravíssimo, compor um ranking é um equívoco. Explico, quem vive escola e sabe como se dão os processos em seu cotidiano sabe ser quase impossível se manter padrões de qualidade altíssimos quando se lida com gente  e mais particularmente com adolescentes.
Para que uma escola encontre um alto nível de excelência a primeira medida a ser tomada é ser seletiva, ou seja, ao invés de agregar o aluno com mais dificuldades, ela deve excluir, os seres humanos que possuem fragilidades e limitações, entendidas aqui alunos com dificuldade em alguma área do conhecimento. A exceção apenas confirma a regra, para se chegar ao último ano do ensino médio com alunos de alto rendimento e com um nível mínimo de dificuldade de aprendizagem em alguma área é preciso selecionar, ir paulatinamente excluindo aqueles que não acompanham o ritmo imposto pela escola.
Esta é uma prática conhecida, desde os anos 1970, uma famosa escola paulistana, que á época possuía apenas o ensino médio despachava os alunos que reprovavam no primeiro ano do segmento, ofereciam até a opção de uma escola mais fraca para estes alunos, com isso mantinham da fama de melhor escola paulistana, tendo como referência o vestibular da Universidade de São Paulo.
Existem muitos tipos de escola, com muitos tipos de alunos, acreditar que é possível manter um alto nível de excelência sem ser excludente é desconhecer como se faz educação, com isto não estamos legitimando a mediocridade e a falta de educação, não mesmo, o que defendemos é que o mesmo poder público que impõe e valida as provas crie efetivamente faixas de excelência e de qualidade, assim como aponte para aquelas escolas que necessitam de apoio e atenção em todos os sentidos.
Em um escala de mil pontos, como o ENEM, o que podemos considerar como sendo uma boa escola? Creio ser esta a questão central e não sabermos que no Piauí, segundo estado mais pobre da federação as elites tem duas escolas “maravilhosas”, acompanhadas de cinquenta escolas miseráveis. É preciso que o poder público tenha a ousadia de propor algo melhor e mais inteligente para que a sociedade saiba o que é uma escola boa ou não, independente de ranking, e das escalas de valores produzidos por donos de escolas e pela mídia não especializada.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

A Graça de Saber Viajar


A maioria de nós acredita que quanto mais igual e parecido somos com alguém, com uma cultura, com um gosto, mais e melhor se tornam as coisas para nós, pois, partimos da premissa, errada e equivocada que pela semelhança nos fazemos melhor.
Em verdade nós gostamos daquilo que é parecido conosco por nos colocar em uma zona de conforto na qual somos impelidos a crer ser tudo mais tranqüilo e aceitável, de tudo tal raciocínio não é falso, nada como estar rodeados por ações, discursos e idéias pertinentes a tudo aquilo que acreditamos, o problema é que, via de regra, isto não estimula ou educada as pessoas.
Imagine uma pessoa que se aventure em fazer uma viagem por um país distante, e nele encontre toda sorte de novidades e diferenças nunca antes imaginadas, dos hábitos á mesa, passando pelas relações de gênero e chegando a concepção de vida e morte. Se o nosso viajante for alguém rígido, dificilmente entenderá como e por que aquelas pessoas assim se comportam, e ao invés de tirar da viagem o prazer estimulante do novo, do diferente, irá se repugnar  de ter passado por tais lugares e ter gasto seu tempo e dinheiro em tal aventura.
O simplório acredita ser o diferente uma afronta a si e aos seus valores, as suas convicções, e dele nada pode tirar senão a repulsa, a indignação e um punhado de reflexões exageradas. Se imaginarmos que ao viajar somos compelidos a uma aula, a uma grande experiência estimuladora das mais diversas possibilidades ofertadas pela realidade, o simplório transforma a aula em exercício de negação intelectual e moral e o proveito educacional se perde em meio a ilações preconceituosas e auto-referentes de si mesmo.
A educação, seu currículo e suas práticas de aprendizagem deveriam muitas vezes se portar como uma viagem, uma experiência de diferenciação e de estimulação no qual as múltiplas possibilidades elencadas pelo conhecimento, pelo novo, servissem de meio para que, primeiro os professores e depois os alunos pudessem se embrenhar, tomados pela curiosidade, pelo (des)conhecido, e nele pudessem experienciar novas formas de se aprender.
O professor na maioria das vezes se comporta como um viajante conservador, todas as vezes que se busca inovar, pensar formas e meios novos de aprendizagem e novos currículos, tudo parece um desalento, um deslocamento para lugar de puro estranhamento. Quando o professor aterrissa em uma sala de aula espera sempre encontrar a mesma paisagem, os mesmos hábitos e as mesmas relações consagradas, quando muito a maioria dos professores aceita um clima mais quente ou mais frio, mas, nada, além disso.
Da sua parte, os alunos, são como os estrangeiros visitados pelo viajante, sim porque a escola é em si o lugar do aluno, seu meio e fim último, como visitados os alunos se vêem hora acolhido e compreendido pelo viajante estrangeiro, hora com profunda repulsa por aquele ser estranho ocupante de uma posição privilegiada, por uma questão de força o professor impõe-se diante dos alunos e cabe a eles se adaptarem ao seu olhar, e a sua leitura da realidade.
A escola não parece ser o melhor lugar para se afirmar que as diferenças são estimulantes para se produzir conhecimento,  novos saberes e despertar a curiosidade, um lugar no qual se desassossega o sujeito, a escola, tendo o professor como seu principal ator, não parece ser capaz de empreender viagens maiores do que aquelas na qual tudo se harmonize com as verdades sabidas a priori, pior para escola, pior para os alunos, pior para a sociedade.