quinta-feira, 24 de novembro de 2011

UM MUNDO DE ESPERANÇA



Um grande amigo me confessou, dias atrás, que dará uma guinada em sua vida, que mudará radicalmente o modo e a maneira como vive, como amigo me coube apenas apoiar, estender a mão e dizer que poderia contar comigo para tudo que precisasse.
Perto dos cinqüenta anos não é fácil impor mudanças profundas na vida, esta é idade deste meu amigo, assim como a minha idade, fiquei tentando encontrar palavras e força para estimulá-lo, para não fazer parecer que ele, depois de uma vida inteira dedicado a uma causa, virasse as costas a tudo e possa ser tomado por louco ou inconseqüente.
Refletindo me veio Nelson Mandela, fiquei imaginando um homem negro de mais de quarenta anos, condenado e preso a prisão perpétua em um país racista. Este homem saiu da cadeia com mais de setenta anos, e reinventou seu país sustentado em uma única convicção, a esperança.
Os céticos, os fracos e os pessimistas acabariam por sucumbir depois de quase trinta anos de cadeia, uma idade avançada e um mundo infinito de problemas pela frente, porém um homem tomado de esperança é capaz de recompor a realidade dentro de si, a limitação física pela idade, a tristeza por tantos anos de confinamento e as tantas batalhas a serem travadas para fazer o mínimo parecem barreiras intransponíveis, errado. O motor de tudo residiu na firme esperança de que tudo é possível quando assim se quer.
Quanta esperança pode haver dentro de nós? A esperança é do tamanho da nossa alma, quão maior ela é maior será nossa esperança. A alma de homens assim, é imensa, pois nela não cabe rancor ou hipocrisia, ressentimento ou vingança, quanto maior a alma maior a condescendência com o humano, a tolerância pelo amor e não pela conveniência oportunista.
Decididamente  eu não sei o que o futuro nos reserva, desconheço o que será de nós, e em especial deste querido amigo, mas creio profundamente que tomado da esperança de fazer algo melhor é possível mover o futuro em prol das nossas convicções e desejos. Uma alma grande, em um grande homem faz tudo parecer e ser pequeno diante do desafio cotidiano que é viver.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Como foi possível?


Existem livros que passamos anos esperando para ler, assim como bem falava Borges, nunca leremos certos livros por haver uma idiossincrasia entre o leitor e a obra. Esperei anos para ler A Origem do Totalitarismo de Hannah Arendt, passei um mês lendo o livro e dediquei horas em trechos espetaculares e ao mesmo tempo reveladores do ser político no século XX, um deleite.
Coincidentemente revi um documentário sobre a Segunda Grande Guerra, além do filme-documentário de Peter Cohen, Arquitetura da Destruição,  depois de tantos anos lendo e estudando sobre o nazismo e a ditadura stalinista uma pergunta me aturdia, como foi possível? Como? Como nos permitimos como civilização brotar e legitimar dois regimes que tinham como único fim a crueldade, a negação da vida humana? Como?
Que tipo de dialética é esta que nos revela a ciência como lugar de desvelamento e humanização, e os dois últimos séculos parecem sintetizar todas as nossas pretensões desde os gregos, inventamos, criamos e recriamos objetos, instrumentos e meios espetaculares, por exemplo, meu avô levou 53 dias no mar nos anos 1930 para poder cruzar o Mediterrâneo e o Atlântico entre Nápoles e Santos, antes de morrer, em fins dos anos 1960, o avião fazia o mesmo percurso em pouco mais de 11 horas! O que explica sermos capazes de gerar governos, movimentos e líderes que tinham como único projeto a morte, instrumentalizado pela ciência? Como?
Longe das minhas pretensões oferecer qualquer resposta, mas Hannah Arendt aponta que houve um conluio perverso e doentio entre a ralé européia e movimentos degenerados travestidos de político, mas com intuito de serem apenas movimentos, hordas de homens e mulheres capazes de dividir a condição humana em partes tão maniqueístas que nada poderia haver entre os puros e os impuros, nem sequer a memória de sua existência. Ao mesmo tempo em que isto é espetacular é horripilante imaginar a existência de um Estado, um governo e um movimento desejoso de suprimir a memória de todos aqueles que não eram toleráveis em sua lógica de horror.
Os comunistas liderados por Stalin fizeram sumir da história e da vida milhões de homens e mulheres, não havia exéquias, documentos, referências para os mortos nos campos de extermínio e nas prisões da polícia política. A palavra sumir é até leve diante do fato que um ser humano simplesmente desaparecer, física e humanamente, sua memória iconográfica, documental era simplesmente apagada da vida social, ou seja, determinado sujeito deixava de existir, ou melhor, o estado munido de seu aparato técnico fazia crer que determinado ser humano sequer um dia existiu.
Os nazistas, obedecendo a uma lógica industrial, apenas matavam, com requinte de crueldade e sadismo, como forma de fazer crer a cada um dos seres humanos, judeus, eslavos, ciganos, comunistas, homossexuais entre outras minorias que o problema era ele existir, o fato de cada homem ou mulher existir era um fardo para a humanidade. E estou convencido que uma parte destes seres humanos acreditava nisto, a ralé os convenceu que eles eram um estorvo imenso para a existência do nosso mundo. Exagero? Em filmes feitos pelos próprios nazistas antes da implementação dos campos de extermínio, vê-se homens e mulheres, descendo de um caminhão e correndo para uma vala onde deitavam sobre os mortos e soldados nazistas, sentados a  beira da vala atiravam, quando as valas enchiam eram fechadas e outras abertas, simples assim.
A partir daquele ponto todos aqueles seres humanos se tornavam nada, deixavam de existir, não como as pessoas normais que ao morrerem são homenageadas, reverenciadas e sua memória perpetuada de diversas formas pelos entes que a cercavam, neste ponto, todos sumiam, deixavam de existir, suas referências eram apagadas, seus nomes sequer eram pronunciados, objetos pessoais eram eliminados, os de melhor e maior valor apropriados pelos assassinos.
Como foi possível criarmos regimes políticos com tais características, ironicamente, o desenvolvimento da ciência e da técnica tornou possível que estes regimes se mostrassem eficiente no extermínio de seres humanos, não me incomoda este fato, mais do que a percepção de uma civilização disposta a ter a morte como fim e a negação do ser humano como meio, por mais que busquemos explicações sob ótica de um ser normal, tais regimes são inexplicáveis, ininteligíveis. Como foi possível? Como?

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Previsibilidade é Tudo que Queremos


Todo brasileiro, homem ou mulher com mais de trinta anos assim como eu terá mais facilidade em entender o que vou escrever neste blog. Sou de uma geração que nasceu, cresceu e chegou á vida adulta sem saber o que era uma vida previsível, ou seja, conhecíamos apenas o  presente, e mesmo assim precária e porcamente. Cresci em meio a uma inflação e uma crise econômica constante e ininterrupta por mais de trinta anos, quem viveu estes dias, meses, anos e décadas no Brasil entende o que digo, não havia futuro, pois as pessoas que viviam do seu trabalho sabiam apenas que hoje daria para comprar comida em determinada quantidade ou mesmo uma roupa ou um calçado, amanhã o dinheiro ganho com o suor do rosto não conseguiria pagar por aquilo que precisávamos, o valor do trabalho e das coisas inexistia.

O futuro era uma incógnita, uma aposta, pois se vivia em uma gangorra esperando que novo plano seria inventado para regular nossas vidas, lembro-me das vésperas do Plano Collor, a loucura das pessoas meio atônitas nas ruas no centro de São Paulo, entre a sete de abril e conselheiro Crispiniano, o Mappin e em outras grandes lojas os preços mudavam a cada três horas, e nada parecia fazer sentido, um frenesi meio apocalíptico que deu naquilo que todos sabemos, um plano maluco e um governo corrupto.
Em verdade este não é um texto das minhas memórias de juventude, é que refletindo sobre o crescimento de meus filhos e o como eles vivem hoje, me dei conta de como a vida ficou melhor, mais digna, menos imprevisível, e não é isto o que no fundo todos nós desejamos? A despeito de uma meia dúzia de certezas todas elas pouco felizes, a vida é um necessário caminhar pela rotina, pelo previsível.
Ouvir as pessoas no cotidiano faz crer que a maioria delas nega o quão feliz são em suas rotinas, na repetição de seu dia-a-dia,  quando no fundo o que a maioria deseja é uma vida previsível, não no sentido de saber o que será feito da rotina diária, mas sim, previsível por saber o quão possível a vida pode ser planejada, ordenada e pensada como algo posto sob o meu domínio. Os céticos dirão ser um enfado tal situação, pois bem, visite um país em guerra, uma nação que viva em hiperinflação e você irá entender de qual previsibilidade se trata aqui, mesmo em casos de desastres naturais, quando milhares ficam desabrigados ou impedidos de retornar as suas casas, o abatimento e a tristeza se apresentam por destituir a vida de um continum essencial.
As tragédias naturais ou as guerras são evidentes na transformação do previsível em imprevisível. Uma existência em descontínuo produz nos seres humanos o afloramento dos instintos mais básicos, o bom e velho Darwin sabia o que dizia quando traçou a evolução e as emoções humanas, sem poder pensar no amanhã como algo previsível, as nossas emoções e pensamentos comportam com insegurança, e me permito uma ilação, quando olho sociedades do terceiro mundo ou comunidades pobres em sociedades muito ricas parece evidente a propensão a violência. Sem a previsibilidade a vida cotidiana e o futuro, tudo se torna um presente eterno, desregrado e alimentado por ações que tem como único fim suprir o imediato. Não é preciso entrar em uma favela tomada por traficantes, em um grande centro urbano, para saber que aqueles que se acercam do negócio das drogas e todos que estão a sua volta resumem a existência a um presente sufocante, nada vai além do tempo que se vivi. A percepção de uma vida sintetizada em um presente contínuo demanda de cada sujeito o fim de qualquer previsibilidade, a vida é feita aqui e agora, nada mais desumano, nada mais infleiz.
Se não pudermos ter garantias mínimas de previsibilidade da vida, de quando poderemos casar, ter filho, passear, aposentar, comprar um velho objeto de desejo o que restará? A sensação de que a vida é um estado de permanente presente do qual se vive hoje para não haver amanhã, isto quase transformou gerações inteiras no Brasil em cínicos, pessimistas, com a existência e propensos a um estado de violência, se não física, uma violência emocional da qual estar vivo era o maior fardo.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Classificando a Mediocridade


Nos últimos anos me habituei a ficar irritado todas as vezes que saem publicadas as notas do ENEM e, por conseguinte, a classificação de todas as escolas brasileiras, as melhores, as mais ou menos, as piores e as horríveis.
Historicamente a escola brasileira nunca foi de fato avaliada, esta coisa de se ter uma prova de referência para nortear o final da vida escolar é, a bem da verdade uma grande novidade para nós, cabe perguntar se isto é bom para a nossa escola e a sociedade.
Para ser direto e honesto, sim, é muito bom se ter provas de aferição para medir o rendimento dos alunos e das instituições, por outro lado é deplorável o hábito de se fazer ranking das coisas, esta coisa de gringo, de norte-americano, os dez melhores isto, os cem melhores aquilo, é só abrir revistas e jornais dos Estados Unidos para vermos como eles adoram estas coisas, me questiono para saber se temos esta cultura competitiva e doentia com o ganhar sempre.
Se a prova é boa, mesmo com todas as suas limitações, por exemplo, literatura esta fora desta avaliação, o que, no meu entender, é um erro gravíssimo, compor um ranking é um equívoco. Explico, quem vive escola e sabe como se dão os processos em seu cotidiano sabe ser quase impossível se manter padrões de qualidade altíssimos quando se lida com gente  e mais particularmente com adolescentes.
Para que uma escola encontre um alto nível de excelência a primeira medida a ser tomada é ser seletiva, ou seja, ao invés de agregar o aluno com mais dificuldades, ela deve excluir, os seres humanos que possuem fragilidades e limitações, entendidas aqui alunos com dificuldade em alguma área do conhecimento. A exceção apenas confirma a regra, para se chegar ao último ano do ensino médio com alunos de alto rendimento e com um nível mínimo de dificuldade de aprendizagem em alguma área é preciso selecionar, ir paulatinamente excluindo aqueles que não acompanham o ritmo imposto pela escola.
Esta é uma prática conhecida, desde os anos 1970, uma famosa escola paulistana, que á época possuía apenas o ensino médio despachava os alunos que reprovavam no primeiro ano do segmento, ofereciam até a opção de uma escola mais fraca para estes alunos, com isso mantinham da fama de melhor escola paulistana, tendo como referência o vestibular da Universidade de São Paulo.
Existem muitos tipos de escola, com muitos tipos de alunos, acreditar que é possível manter um alto nível de excelência sem ser excludente é desconhecer como se faz educação, com isto não estamos legitimando a mediocridade e a falta de educação, não mesmo, o que defendemos é que o mesmo poder público que impõe e valida as provas crie efetivamente faixas de excelência e de qualidade, assim como aponte para aquelas escolas que necessitam de apoio e atenção em todos os sentidos.
Em um escala de mil pontos, como o ENEM, o que podemos considerar como sendo uma boa escola? Creio ser esta a questão central e não sabermos que no Piauí, segundo estado mais pobre da federação as elites tem duas escolas “maravilhosas”, acompanhadas de cinquenta escolas miseráveis. É preciso que o poder público tenha a ousadia de propor algo melhor e mais inteligente para que a sociedade saiba o que é uma escola boa ou não, independente de ranking, e das escalas de valores produzidos por donos de escolas e pela mídia não especializada.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

A Graça de Saber Viajar


A maioria de nós acredita que quanto mais igual e parecido somos com alguém, com uma cultura, com um gosto, mais e melhor se tornam as coisas para nós, pois, partimos da premissa, errada e equivocada que pela semelhança nos fazemos melhor.
Em verdade nós gostamos daquilo que é parecido conosco por nos colocar em uma zona de conforto na qual somos impelidos a crer ser tudo mais tranqüilo e aceitável, de tudo tal raciocínio não é falso, nada como estar rodeados por ações, discursos e idéias pertinentes a tudo aquilo que acreditamos, o problema é que, via de regra, isto não estimula ou educada as pessoas.
Imagine uma pessoa que se aventure em fazer uma viagem por um país distante, e nele encontre toda sorte de novidades e diferenças nunca antes imaginadas, dos hábitos á mesa, passando pelas relações de gênero e chegando a concepção de vida e morte. Se o nosso viajante for alguém rígido, dificilmente entenderá como e por que aquelas pessoas assim se comportam, e ao invés de tirar da viagem o prazer estimulante do novo, do diferente, irá se repugnar  de ter passado por tais lugares e ter gasto seu tempo e dinheiro em tal aventura.
O simplório acredita ser o diferente uma afronta a si e aos seus valores, as suas convicções, e dele nada pode tirar senão a repulsa, a indignação e um punhado de reflexões exageradas. Se imaginarmos que ao viajar somos compelidos a uma aula, a uma grande experiência estimuladora das mais diversas possibilidades ofertadas pela realidade, o simplório transforma a aula em exercício de negação intelectual e moral e o proveito educacional se perde em meio a ilações preconceituosas e auto-referentes de si mesmo.
A educação, seu currículo e suas práticas de aprendizagem deveriam muitas vezes se portar como uma viagem, uma experiência de diferenciação e de estimulação no qual as múltiplas possibilidades elencadas pelo conhecimento, pelo novo, servissem de meio para que, primeiro os professores e depois os alunos pudessem se embrenhar, tomados pela curiosidade, pelo (des)conhecido, e nele pudessem experienciar novas formas de se aprender.
O professor na maioria das vezes se comporta como um viajante conservador, todas as vezes que se busca inovar, pensar formas e meios novos de aprendizagem e novos currículos, tudo parece um desalento, um deslocamento para lugar de puro estranhamento. Quando o professor aterrissa em uma sala de aula espera sempre encontrar a mesma paisagem, os mesmos hábitos e as mesmas relações consagradas, quando muito a maioria dos professores aceita um clima mais quente ou mais frio, mas, nada, além disso.
Da sua parte, os alunos, são como os estrangeiros visitados pelo viajante, sim porque a escola é em si o lugar do aluno, seu meio e fim último, como visitados os alunos se vêem hora acolhido e compreendido pelo viajante estrangeiro, hora com profunda repulsa por aquele ser estranho ocupante de uma posição privilegiada, por uma questão de força o professor impõe-se diante dos alunos e cabe a eles se adaptarem ao seu olhar, e a sua leitura da realidade.
A escola não parece ser o melhor lugar para se afirmar que as diferenças são estimulantes para se produzir conhecimento,  novos saberes e despertar a curiosidade, um lugar no qual se desassossega o sujeito, a escola, tendo o professor como seu principal ator, não parece ser capaz de empreender viagens maiores do que aquelas na qual tudo se harmonize com as verdades sabidas a priori, pior para escola, pior para os alunos, pior para a sociedade. 

terça-feira, 26 de julho de 2011

Do Detran a Santiago do Chile



Sai de férias e na volta me deparei com uma notícia muito interessante, muitos candidatos á prova do Detran, para obtenção da carteira de motorista reclamavam da sua dificuldade, o que causa um grande número de reprovações e atrasa o sonho da maioria de sair dirigindo pelas ruas e estradas brasileiras.
O jornalista perspicaz ao invés de questionar a prova saiu á rua oferecendo a prova para as pessoas e perguntando, “você entendeu o que leu?” e a resposta, via de regra era “não” ou, respondia outra coisa totalmente diferente daquilo que havia sido perguntado na questão. Fica evidente aquilo que as avaliações nacionais e internacionais já constatam á tempos, a maioria dos nossos cidadãos alfabetizados é capaz de ler, mas, são incapazes de interpretar o que lêem.
Esta deficiência acaba se refletindo em uma série de outras indagações que me assolaram nas minhas férias; Passei por Santiago do Chile e sinceramente em alguns momentos senti vergonha, muita vergonha de ser brasileiro, sentimento este compartilhado por minha filha caçula de 12 anos.
Santiago é uma cidade fantástica, plana, com um plano urbano muito bem elaborado no qual o visitante pode caminhar por todos os lados cercado por uma arquitetura criativa e inventiva na qual o olhar se perde por entre a beleza sutil que se apresenta nos detalhes das fachadas ou no simples recorte de telhados, praças e edifícios públicos. E se não bastasse esta graça estética a Cordilheira dos Andes avança sobre a cidade criando um cenário de cartão postal no entorno da cidade.
A despeito da beleza de Santiago e de sua leveza estética, suas ruas e lojas estão lotadas de brasileiros, a combinação de vários fatores como, um país com impostos baixos – o Chile- uma moeda mais forte – o Brasil- uma profusão de produtos de boa qualidade a preços excelentes – o Chile- uma nação que aos poucos aumenta a sua classe média – o Brasil- transformaram Santiago em um paraíso para as compras de brasileiros.
O problema, como bem disse o motorista que me levava do hotel ao aeroporto, é que “os brasileiros se sentem em casa aqui no Chile.” E isto não é apenas uma força de expressão, presenciei cenas deploráveis nos dias em que lá fiquei, mas quem sabe a mais grave é o desrespeito dos nossos patrícios com os locais, pois não importa onde, seja na loja, no hotel, no metro, no restaurante, seja onde for com que for se insiste m falar português com os chilenos e pior, na maioria dos casos se ficava irritado com o cidadão local que muitas vezes não sabia ao certo o que o turista incauto desejava. Curiosamente a medida que o chileno não compreendia o português, o brasileiro acabava aumentando o tom de voz, como se a altura do tom pudesse facilitar a compreensão, ao que me conste, falantes do castelhano não se tornam capazes de entender o português apenas pelo nível de decibéis empregados pelo sujeito, isto todos deveriam saber, pois se assim fosse, todo ouvinte de rock metal seria fluente de inglês.
Mas estar em casa é também se por a vontade, no lobby do hotel no qual estava hospedado, uma moça tirou os sapatos deitou em um dos sofás e simplesmente colocou os pés nus sobre o braço do sofá, enquanto seu filho ou irmão corria pelo lobby ameaçando a decoração e o pessoal do hotel atrás do infante tentando conte-lo, enquanto a mãe relaxava no sofá.
Isto se associa ao uso de palavras de baixíssimo calão ditas a tordo e a direito em locais públicos, assim como se ninguém estivesse ali e pudesse ouvir e se constranger. Os chilenos são calmos e educados, presenciei cenas na qual haveria um chamado “barraco” em locais públicos lotados, mas as pessoas se comportavam solícitas e pacientes sem aumentar o tom de voz ou fazer uso de qualquer ato de agressividade, coisas tão comuns entre nós.
Os chilenos também são acercados por comediantes que vez por outra tomam o poder e saem a dizer estultices que envergonham o país, o presidente Piñera, enfiado em uma revolta estudantil contra a sua reforma educacional que fará diminuir subsídios e aumentar o custo do ensino universitário se saiu com esta, “educação é um bem de consumo.” Foi achincalhado e ironizado por todos, recebendo uma saraivada de críticas, potencializando os protestos que tomavam conta da cidade. E os estudantes não estavam para brincadeira, foram para cima da polícia e não deixaram de protestar durante todos os dias em que lá estive, parece que para estes chilenos educação é uma coisa importante.
O pessoal nas calçadas de Curitiba tentando desvendar os mistérios da prova do Detran diante do olhar quase cômico do jornalista, não entenderiam, o que significa educação como bem de consumo, assim como os nossos compatriotas, elevados a condição de classe média consumista a invadir um pequeno país de língua castelhana e tomar com seus dólares e reais: hotéis, bares, ruas, taxis, pistas de esqui e tudo que esteja disponível e possa ser comprado não entendem, ao menos uma parte deles, o que seja visitar e estar na casa de alguém, respeitassem hábitos, costumes, língua e ouvidos. Um pouco mais de educação não faria mal a ninguém.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Escola. Precisamos de mais?

Se existe uma coisa que só os humanos podem se orgulhar de ter é criatividade, um quê de inventividade diante das agruras da realidade tão dura e monótona nos afligindo todos os dias, e haja criatividade para se superar o cotidiano, o muito do mesmo sempre. O bom é que podemos e devemos educar e exercitar esta qualidade tão humana, e o que esperamos é ver na escola esta parte rica, lúdica dos seres humanos potencializada ao máximo.
Todo sujeito criativo é também alguém de imaginação sem igual, Newton, Einstein, Pasteur, Mendel seriam tantos que poderíamos citar um milhar de sujeitos, afinal, a ciência, assim como todas as atividades humanas, são objetos nascidos de homens criativos e ricos em imaginação, a hipótese científica é em verdade uma criação imaginada e construída no pensar de um homem de grande criatividade.
A educação formal, regular a qual todas as crianças e  adolescentes estão submetidos compulsoriamente é por definição um lugar, ao menos aqui nos trópicos, uma coisa chata, muito chata, nas suas rotinas, nas suas práticas de aprendizagem e ensino, um cotidiano maçante no qual os alunos e mesmo os professores são submetidos a uma série de pré requisitos invariavelmente destituídos de qualquer elam de criatividade e imaginação.
Na proporção inversa que a sociedade e a ciência avançam dia-a-dia e a passos largos com criações cada vez mais inovadoras e criativas, novos aparelhos com a múltipla convergência de mídias e instrumentos em meios atraentes e estimulantes a curiosidade. A escola, em contrapartida, continua no mesmo lugar enfadando a vida de alunos e professores.
Do jeito que o meu avô, meu pai, eu e meu filho estudou, meus netos estudarão, sentados em fila indiana em uma sala em colunas na qual seguem a frente um indivíduo a repetir coisas, e entre o aluno e professor um livro didático entristecido, cabendo ao aluno depositar todas as suas necessidades de aprendizagem, em um ir e vir mediatizado em meios que a cada dia se tornam mais obsoletos, ao menos aos olhos dos alunos.
Nos últimos cem anos por mais que me esforce não consigo ver o que foi incorporado de novo à escola para que ela se tornasse um lugar criativo e criador, um espaço mais lúdico e menos enfadado pelas repetições. Sem grande trabalho vemos que o livro didático ficou mais colorido, a TV cumpri uma função terapêutica para algumas disciplinas e o PC, assim como o data show e a lousa interativa apenas foram postas a serviço de uma maior eficácia, bastante questionável, diga-se de passagem, da vida em sala de aula. Em resumo, não consigo ver na escola mudanças substanciais que a tornem outra coisa senão ela mesma, como uma senhora enrugada de seios flácidos, pálpebras caídas e nádegas repletas de estrias e celulite, logo após um série de cirurgias plásticas parece melhor, mas continua um velha senhora, incapaz de fazer frente a uma jovem de dezenove anos.
Em terra de analfabetos, somos 15% da população com mais de 15 anos e mais 43% de analfabetos funcionais, que mal conseguem ler e entender uma manchete de jornal ou um bilhete, assim quem tem o mínimo de qualificação se sente rei, ou seja, lutamos para ter uma escola que ensine a ler e escrever, e consiga cumprir seu papel social, minimamente, o que já faria feliz nove entre dez brasileiros, mas para quem vive de educação isto é pouco, é quase nada.
Gostaria de imaginar uma sociedade empenhada em pensar e criar uma escola criativa, estimulante e diferente do que temos hoje, na qual os alunos, assim como os professores pudessem ser criadores e não meras criaturas escravizadas por livros e materiais apostilados medíocres que ensinam um punhado de tolices, que hoje, sem grande  esforço, se pode saber usando os diversos recursos de mídia disponível. Até quando ficaremos vendo a escola envelhecer sem nos interpor exigindo algo criativo de verdade, algo que use e abuse da ludicidade infantil e adolescente? A escola esta desconectada da vida real, ensimesmada ela sequer consegue se libertar dos seus arcaimos e ranços, como dizia um grande professor que tive, se São Tomas de Aquino pudesse voltar hoje a única instituição que ele reconheceria e saberia o que é seria a escola. Precisamos de mais?

quarta-feira, 29 de junho de 2011

A Mentira


A filosofia assim como a ciência por séculos persegue a verdade como sendo o fim de tudo, o princípio e a origem. A teologia, também, através do texto sagrado, revelou para nós que sem a verdade ninguém poderá ser salvo. A verdade, enfim é a nossa sina e desejo, desde sempre dos homens, das mulheres, mas é só um desejo e não uma vontade incontida.
Os homens desejam a verdade? Historicamente parece que sim, mas na prática da vida cotidiana isto se revela estranho, afinal, o que mais se faz no dia-a-dia é contar pequenas e/ou grandes mentiras para se safar de situações constrangedoras, para se tirar vantagem moral ou financeira. Pior ainda, por vezes se mente por mentir, só pelo prazer de fazer.
Os anos de vida foram me convencendo que a verdade é um problema do outro, ou seja, nos preocupamos em não sermos enganados por um mentiroso, próximo, a mulher, o marido, o namorado, o filho; ou por aquele que é distante um parceiro de trabalho, o chefe, o motorista do taxi etc.. . Na proporção inversa que somos tão mentirosos quanto possível para vivermos ou nos darmos bem, o problema não sou eu mentir, o problema é mentirem para mim.
Se existem pesquisas sobre o índice de mentirosos entre nós eu desconheço, mas aposto que se perguntarmos a um número considerável de homens e mulheres todos serão absolutamente sinceros em mentir, dizendo que mentem pouco, na mesma medida que odeiam os mentirosos, nenhuma novidade constatarmos que somos uma sociedade de hipócritas.
O mundo burguês é antes de tudo um lugar no qual a hipocrisia se fez presente como em nenhum outro momento de nossa história, desprezamos o religioso, construímos uma sociedade laica, não temos mais temores transcendentais, todos os medos se resumem a nossa mísera e porca vida material, onde o se dar bem, o sucesso é o fim último de todos.
Atento para afirmar que longe de mim acreditar que o simples fato da fundação de uma sociedade e uma cultura laica seja o redutor de todas as nossas mentiras, este é apenas o ponto mais evidente das nossas vidas burguesas, o bom e velho Platão, tinha razão ao afirmar que as aparências nos levam para uma zona de sombras e obscurantismo, e ser burguês, assim como eu e você, é viver neste lugar de penumbra no qual nos esforçamos todos os dias para parecer ser, apenas parecer. Haveria mentira maior e mais mal(u) contada do que este estado de aparências que nos rodeia?
Em nenhum momento da nossa breve história civilizatória, mentimos tanto, ou seria mais elegante afirmar, omitimos tanto o que e quem somos, estamos o tempo todo, todo tempo, querendo parecer ser mais rico, mais inteligente, mais influente, mais magro, mais bonito, mais jovem, mais poderoso, mais sexy, mais generoso, mais esperto, mais eficaz, mais fiel, mais justo, mais felizes do que na verdade somos.  Em fim de contas existe mentira maior do que parecer aquilo que não se é?
Uma vida burguesa feliz demanda omitirmos o que de fato somos e, esforço maior nos é exigido cotidianamente para que as aparências se mantenham vivas, nosso hedonismo, tudo faz pelo prazer de parecer mais, não consigo dimensionar as conseqüências desta realidade para nossa cultura no médio e longo prazo, mas o fato é que em verdade, querer ser verdadeiro é uma mentira para nós.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

A Ética do Cínico


Em sociedades mais equilibradas e civilizadas, não gosto da palavra desenvolvida ela remete a uma idéia de progresso e avanço técnico e tecnológico que necessariamente não condizem com a condição civilizatória da sociedade, e os norte-americanos são um bom exemplo deste anacronismo, a riqueza e o poderio técnico não faz dos Estados Unidos um lugar desprovido de barbarismos e crises sociais graves, recheadas de violências, segregação e preconceito.
Mas, o que me incomoda é a condição de ser brasileiro, de ser cidadão e o quanto somos impelidos cotidianamente a nos tornarmos cínicos. O cinismo é o contrário do ético, explico, um sujeito ético tem preceitos, princípios e valores claros que norteiam sua vida. Ser ético é fazer das pequenas ou grandes coisas do dia-a-dia algo simples, se paro no semáforo o faço não por temor do guarda escondido atrás de um poste pronto a multar, mas sim, porque sei que é meu dever e por respeito ao pedestre e aos outros motoristas, simples assim, não se age por temor, ou mesmo obrigação, se age pela convicção de se estar fazendo o certo, nada mais.
O cínico passa o semáforo porque ele tem compromissos inadiáveis, porque a sua  pressa é mais pressa que a de qualquer outro, o cínico justifica seus atos com argumentos sempre descabidos e imorais, bem dito que o descabido e imoral é para quem ouve, porque para o cínico tudo se explica dentro da sua lógica simplória, do sempre foi assim, ou se eu não fizer o outro fará.
A questão é que todos os dias somos convidados a não sermos éticos com coisa alguma em nossa vida, e pior, somos açoitados por exemplos e mais exemplos de barbarismos, violências e atos de usurpação do poder no limite do que se possa compreender como razoável.
As conseqüências de se viver em uma sociedade de espertos, de malandros e bárbaros é nos transformarmos em cínicos confessos, e os cínicos são aqueles que ao invés de se indignarem, apenas dão de ombros como quem atesta que isto não tem nada a ver comigo, isto é problema dos outros, ou se fosse comigo eu faria o mesmo.
Os males que acompanham a transformação do ético em cínico é achar, entender e explicar o mal como algo normal, aceitável, quando em verdade nada que esteja fora da compreensão e razoabilidade do civilizado pode ser aceito ou tomado como normal, ao nos comportarmos assim, apenas e tão somente nos fazemos cínicos empedernidos.
Os cínicos vêm tudo sob uma ótica particular, própria, pois nada está de fato fora do lugar, tudo parece tolerável, todo cínico é por convicção leviano, ao menos com a realidade ele o é, “porque afinal tudo é como é. É assim mesmo.” É esta a ética do cínico.
O cínico é oportunista, ele se põe diante das situações preparado para tirar proveito, desconhece pudores morais, abstrai qualquer questão de consciência, o cínico não precisa de autorização para agir, ele faz para si e só para si, se assim o convier, para o cínico, o outro não existe, somos uma nação pródiga neste fenômeno, os cínicos parecem brotar na vida social por geração espontânea e ser ético parece a cada dia algo destituído de sentido e significado.
A nossa necessidade civilizadora e civilizatória precisa ser educada, sem o que, ficaremos ainda por gerações e gerações debatendo e nos debatendo não sobre o óbvio, mas sobre o inaceitável, que o digam os nossos homens públicos, as celebridades, os policiais, os banqueiros, os fiscais,..

terça-feira, 31 de maio de 2011

O BELO


O senso comum acredita que a beleza é uma questão de gosto, ledo e triste engano, como bem sabia e dizia um grande professor meu na universidade, “mau gosto não se discute, se lamenta”. Estamos cercados, acuados pelo mau gosto, ele parece ser a sina que nos pune todos os dias nas mais diferentes manifestações.
Você está em casa e um idiota com um som altíssimo passa embaixo da sua janela, tocando um funk com letra obtusa em uma voz nasalizada horrenda. Você liga a televisão e lá estão eles, em profusão cantores de vozes guturais falando de um amor vulgar, feito por sujeitos vulgares em situações vulgares. Se não bastasse sertanejos e funkeiros ainda aparecem grupos de toda espécie com músicas de duplo sentido prontos para transformar simples palavras em objetos sexuais e pouco sensuais. Mas não é só a música ruim que invade o cotidiano e atormenta o juízo do bom gosto estético, é as roupas, o linguajar limítrofe que reforça o nosso subdesenvolvimento educacional, linguagem que nos aproxima quase de um submundo cultural e moral.
As imagens que nos cercam todos os dias corroboram para o cenário de horror estético, são cadáveres, tragédias inomináveis exploradas com intensidade fotográfica e imagética, mas sem análise, sem discurso, aquilo se basta para prender o espectador, as pessoas são seduzidas pela feiúra do barbarismo, e creio, sentem prazer com o feio, com o mau gosto, com dores, com sangue em abundância e pessoas em desespero.
Reflito se o prazer com o feio, com o mau gosto, é em si um desejo humano, um sintoma de empobrecimento cultural ou um dado essencialmente humano e que se perpetua em nós como sujeitos, independente da nossa condição civilizatória e educacional.
Antropologicamente quando lemos sobre os diferentes ritos e práticas culturais  cotidianas de povos indígenas, nos mais diversos recantos, fica evidente que estes povos em sua esmagadora maioria se preocupam com a beleza, com a harmonia pacificadora de uma estética do belo. E se conclusão se pode tirar, é que a feiúra não se vincula ao estado civilizador, mas sim ao olhar cultural de uma sociedade para seus pares e da realidade. O nosso nível de primitivismo espanta se levamos em conta os níveis de desenvolvimento tecnológico alcançado por nossa civilização, proporcionalmente inverso a nossa capacidade de elevação estética e fruição da beleza.
O rude provocado pelo feio, nos torna piores, mais insensíveis a vida, menos atentos  aos detalhes, mais dispostos a tolerar a barbárie do que de fato combatê-la, pois acabamos crendo ser possível combater a força pela força, a dor pela dor, a tristeza com mais tristeza porque a falta de sentido estético se compraz muito mais com a força, a dor, o bárbaro e a tristeza do que com a alegria das sutilezas e o singelo prazeroso da beleza.
Educar para o belo é uma tarefa tão difícil quanto ensinar vetores, trigonometria, ou seja, lá quantas outras coisas possam lembrar-nos do currículo escolar, a diferença é que a escola se preocupa com alunos que não sabem estas coisas, mas pouco se atenta para o vazio estético presente na escola, quem sabe seja por esta razão que as nossas escolas em sua maioria são pobres esteticamente, feias mesmo, com paredes padronizadas em cores mortas, algumas quase encardidas, com portas entristecidas em tons iguais, em edifícios horrendos no qual a beleza é uma abstração discursiva resumida a um rompante momentâneo e efêmero.


terça-feira, 24 de maio de 2011

Um Século de Pessimismo


O século XX foi marcado, pelas piores e mais cruéis tragédias que a humanidade viveu, a lista é um cipoal de dores, o massacre de milhares de armênios pelos turcos otomanos; o nazi-fascismo e o genocídio de judeus, ciganos e russos; o marxismo nas suas mais diferentes facetas, o stalinismo, sedento de sangue pôs fim a vida de milhões de russos para dar vazão a planos e agendas de um governo pseudo revolucionário e seus congêneres pelo mundo, como o Camboja de Pol Pot e seu ódio pela vida e pela inteligência; as guerras fratricidas de independência na África; e as ditaduras latino-americanas, que tiveram na Argentina seu ápice, com o assassinato de milhares e o seqüestro dos filhos dos assassinados pelos seus algozes; e hoje na costa Atlântica da África a barbárie se inova, com milhares de crianças sendo arregimentadas e transformadas em assassinos para fazer parte de exércitos na Guiné, na Costa do Marfim, na Libéria.
Estes eventos do século passado contam as vítimas aos milhões, e  deveriam ceifar a confiança de qualquer ser humano na vida, no amanhã, diria que o século XX é o século da desesperança, pensadores importantes como  Theodor Adorno,  Max Horkheimer, Walter Benjamin, Jean Paul Sartre, Hannah Arendt e Albert Camus se esforçaram em mostrar como éramos sujeitos de um tempo sombrio e com severas conotações de decadência.
Um olhar por menos apurado que seja sobre estes tempos sombrios, não conseguiriam ser menos pessimistas com o que poderia estar por vir para os homens, os estados e a própria ciência. Até hoje me deparo com estes pensadores e outros do século passado e por mais eu os admire e me sinta envolvido, e reflita sobre as mais diferentes implicações de seu pensamento, não consigo nem me sentir e ser um pessimista, assim como percebo que o século XXI se deixou tomar por outras formas de pessimismo.
Vivemos hoje acercados pela “certeza, a convicção,” de que o futuro será pior, não pela barbárie ou pela crise na política ou no estado nacional, mas sim porque a natureza se porá contra nós em breve, logo ali á frente. Adianto que não sou um incrédulo da causa verde e do meio ambiente, pelo contrário creio na maioria das ameaças elencadas pelos cientistas e por parte da sociedade civil. A questão é a curiosidade acerca do pessimismo que tomou conta de parcelas das sociedades industriais e ocidentais sobre o nosso futuro. Como não temos mais:  grandes guerras, ou estados tirânicos em profusão, até Cuba parece cada dia mais com um enredo hollywoodiano  sobre uma ilha conhecida, mas governada por velhinhos rabugentos, do que uma realidade de fato, é preciso achar que encontrarmos um bode expiatório para o nosso desejo pessimista.
E nosso desejo se aprofunda em ver a natureza se degradando, quando em verdade acredito que falte a nós retomar os grandes pensadores do século passado e, se indagar se o maior risco somos nós mesmos, a nossa desumanidade desmedida e cada vez mais cruento e irrefletida sobre o que somos e por que existimos, no século do pessimismo passamos ao largo da nossa mais fina crença, e destituímos a igreja de importância, para pareceremos mais livres e civilizados, e assim nos fizemos piores do nunca havíamos sido em qualquer tempo, por nos faltar um guia com a estatura de  João XXIII, que em  pleno século dos pessimistas, dos bárbaros fardados, ou de ternos bem cortados,  ou em túnicas acadêmicas nos re-apresentou o valor de ser cristão e ter como fim último, em tudo que faz apenas e tão somente o bem.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

A HOSTILIDADE DA MEMÓRIA


A minha memória é um lugar no qual o maravilhoso se revela em intensidade tal e tamanha que por vezes penso ser ela não a residência das reminiscências e nostalgias, mas sim, o espaço no qual eu sou hostilizado cotidiana e periodicamente por pessoas, lugares, coisas, odores, figuras e sentimentos, uma hostilidade implicante e arrebatadora do presente vivido.
A memória revigora a existência, refaz a vida e seu contínuo de enfado e repetições em fragmentos espetaculares,  reveladores da graça do existir, como antídoto contra as nossas mazelas e tristezas.
Por sermos humanos podemos resgatar todos os cacos do passado, todas as experiências vividas e remontá-las em tão variadas formas e conteúdos que é impossível não se sentir melhor, mais senhor do nosso tempo, e dos cacos, nascem mosaicos prazerosos de serem contemplados dentro de nós.
De todos os fragmentos que eu reúno constantemente, são as pessoas que por mim passaram e por variadas razões eu nunca mais as vi, nunca mais ou verei que povoam minha memória. As lembranças de algumas delas são tão vivas, tão nítidas em mim que consigo trazer os odores, os olhares e pequenos trejeitos, o som e a inflexão da voz, os sorrisos e risadas todos novamente se mostram presentes em mim como se pudesse eu dialogar, tocar e sentir com estas pessoas, os cacos são remontados paulatina e desordenadamente e o prazer, a alegria da memória, acaba sendo pura hostilidade.
Os ruídos criados dentro de nós, no intuito de reviver o tempo vivido, a memória daqueles que um dia vivemos ou convivemos, se transformam em hostilidade ao nos acossar em um desejo de retorno, de querer voltar, e por mais desejado não conseguimos fazê-lo, tudo se mescla entre a contemplação alegre do mosaico formado pelos mais variados cacos e a certeza da ausência, do não mais viver, tocar ou sentir quem a nossa memória aviva.
O hostil não é mal, o hostil não é cruel, o hostil é o primo irmão da ingratidão, covarde, impondo a nós as veredas da nostalgia, que comprime o peito, que atordoa nossas idéias e imperativamente, como um tirano, nos impõe a verdade do tempo vivido e nunca mais revivido, hostilidade indecente, quase obscena, nos põe acuado no canto e provoca desejos, prazeres, sabores, sensações tomadas no tempo passado e nunca mais repetidas.
Queria não precisar da memória, queria, mas toleramos a sua presença provocadora, crendo, ainda ser ela uma parte necessária para nos manter vivo, penso em Guimarães Rosa e um pequeno poema no qual, para subverter a hostilidade da memória, afirma, “eu tenho saudades do futuro”, queria eu poder ter tamanha saudades para  transformar os meus os cacos e seus mosaicos  em um olhar do futuro,  e não, uma insidiosa provocação do passado, vivo dentro de mim, morto no tempo.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

AS PONTES QUE NOS UNEM


As pontes são construídas para que os homens possam transpor obstáculos, para passarmos de um ponto a outro em segurança, porque sempre há algum tipo de risco nos separando do outro extremo.
Quero crer na oportunidade de estar vivo e, assim, poder construir pontes que unam as pessoas aos lugares, aos sentimentos que desconheço, ao desejado e principalmente ao outro. Quando se é jovem não se tem tempo para construir pontes, são sempre melhor buscar atalhos, caminhos alternativos que sejam menos trabalhosos, menos demorados.
Educar em verdade é ensinar a construir pontes, elas não são rápidas de se construir assim como demandam esforço e trabalho constante de nós, certa dose de perseverança e persistência para que se consiga não se deixar abalar pelo desanimo, pelo cansaço, pela descrença ou pelo desamor. Estou convencido ser a perseverança a maior das virtudes do educador, ensinar que não se pode desistir diante das pequenas ou grandes dificuldades, que ao abandonar um projeto, ao abandonar um desejo, ao esquecer um sonho se abre também as portas para a desilusão e o sentimento de fracasso, fio condutor para o imobilismo e a apatia.
Ensinar é fazer o educando vislumbrar as possibilidades postas do outro lado da ponte, e como do outro lado sempre pode haver algo desejado, o segredo da educação é fazer com que os alunos não encontrem em nós respostas, mas sim as perguntas certas para se sentirem capazes de seguir em frente, pois não se pode ensinar que uma ponte, ao nos levar para o outro lado, ao encontro de alguém ou de algo, é a mesma que nos permite retornar em segurança ao ponto inicial se assim o quisermos.
Ao construirmos pontes podemos avançar assim como estamos seguros de, se necessitarmos, poder retornar, mas esta é uma percepção aprendida na árdua tarefa do educar de todos os dias, pois na maioria das vezes é sempre mais fácil seguir pelo mais fácil, correr riscos mesmo que não se saiba quais é e ao fim do caminho não saber como voltar, ou ao fazê-lo se colocar em perigo, como a maioria dos adolescentes e jovens faz, ou simplesmente desprezar o fato de que, onde existe uma ponte, é sempre possível seguir adiante pelo mesmo lugar que se pode retornar ao ponto de partida.
É preciso construir pontes para passarmos pela barbárie, pela desumanidade de um mundo cada vez mais desapegado do humano, ensinar é poder transpor com inteligência e sabedoria os rios de contrariedades e violências físicas e simbólicas presentes em nosso cotidiano. Não é fácil ensinar a construir pontes, não para si, mas para o outro, não para hoje, mas para amanhã e sempre, não é fácil educar, não é simples viver e crescer, mas é virtuoso conhecer como se constroem pontes.


terça-feira, 12 de abril de 2011

SAUDADES DA VIDA



Escrever sobre atos de violência é sempre algo doloroso e ao mesmo tempo entristecedor, especialmente quando não conseguimos ao certo saber as razões que movem as pessoas ou a pessoa a cometer tal ação. Não vou me atormentar em querer entender o que um desequilibrado pretende ao matar friamente alunos dentro de uma sala de aula, apenas queria notar que entendo ser este fato, uma exceção na vida brasileira.
Gostaria de me ater as imagens, todas elas sem som, para alívio de nós observadores distantes, pois, se ver as crianças e os adolescentes correndo desesperados já é angustiante, ouvir se tornaria insuportável a uma pessoa normal. As imagens que se tornaram públicas são todas perturbadoras, mas de todas as imagens, a que mais me chamou a atenção, e provocou a escrita deste artigo, foi a de um garoto, caído no chão, sangrando com várias perfurações de bala pelo corpo, se contorcendo em dor e, com certeza, pedindo ajuda.
Um garoto jazia no chão, e as pessoas correm de um lado para o outro, policiais, facilmente identificáveis, e adultos homens e mulheres, que suponho sejam pais de alunos e mesmo funcionários da escola, todos meio atônitos, numa correria de um lado para outro, creio que a maioria dos civis naquele momento buscava encontrar alguém, filhos, netos, sobrinhos, amigos, e o garoto jazia ali, sangrava, e se contorcia.
Por mais incrível que pareça, o menino continuou no chão sem que ninguém, sem que qualquer pessoa parasse para oferecer conforto a ele, todos contornavam a dor, o sangue e o ser humano ali, como um simples obstáculo a ser transposto, a ser superado em meio ao caos estabelecido. Como observador distante, fiquei me perguntando qual a razão da indiferença, por que ninguém sequer se abaixou para falar com o garoto?
Se não encontro resposta para um louco ensandecido, me questiono e tento responder o porquê da indiferença com a dor do outro, e em verdade a única explicação que me chega é o quão banal é contemplar um ser humano sofrendo, não que sejamos cínicos, que aquelas pessoas atarantadas de um lado para outro o fossem, mas é preocupante a indiferença coletiva.
Em um livro clássico do início do século passado, Nada de Novo no Front, Erich Maria Remarque narra a vida nas trincheiras durante a Primeira Grande Guerra, e revela que homens quando postos em uma situação limite se transformam em algo próximo do semi humano, do quase humano, sem, contudo haver neles qualquer estado de desumanidade consentida ou desejada eram apenas homens que sofriam todos os dias a dor intensa de contemplar mortos, o risco constante. Quão indiferente é preciso ser para suportar a dor e a morte, com um esforço  sobre-humano no  início, se torna no passar do tempo um ato banal, recolher corpos em dor e mutilados, recolher cadáveres, pular sobre eles em campos de batalhas, usar estes corpos inertes e sem vida como escudos e barricadas, tudo se torna parte de uma rotina macabra em nome da sobrevivência e cada um luta apenas para sobreviver, para chegar vivo amanhã.
Remarque põe a mostra o pior do humano, seu  pouco caso com a vida, seu desejo de auto preservação quando exacerbado se revela pura omissão com o outro, as dores e a morte do outro se fazem banais, assim como comer, beber, dormir, acordar e lutar. Pareceu-me, e só me pareceu que todas aquelas pessoas, policiais e cidadãos olhavam, mas não viam o garoto sofrendo a sua frente, era mais um,  invisível o corpo jazia diante de todos e ali ficou até que os paramédicos chegassem. 
Esta não é uma crítica ao desespero e a consternação de todas aquelas pessoas que pulavam por cima daquele corpo inerte e em sofrimento, é apenas a percepção do observador de uma cena típica de uma sociedade violenta na qual a vida humana é um detalhe, onde no elenco de prioridades de cada cidadão, o outro é apenas uma citação aleatória, quase estatística, ou midiática, desconfio ser a violência um fato tão entranhado em nós que mesmo nos momentos mais terríveis, não sabemos restabelecer uma relação solidária com o outro, apenas nos esquivamos da sua dor e corremos para matar as saudades da vida que nunca mais teremos.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

PERDOAR




Ao tratar de um tema como este pode parecer que nos remeteremo à uma questão religiosa, porém eu não sou religioso ou teólogo para conduzir um texto nesta direção. A minha reflexão se pauta na nossa condição humana e na nossa herança cultural.

Somos sujeitos, homens e mulheres herdeiros de uma civilização baseada no perdão como elo elementar que nos une ao divino e ao outro que está ao nosso lado. A idéia mais simples do perdão é o ato de oferecer ao outro o esquecimento como forma de restabelecer laços, superar diferenças ou simplesmente reatar vínculos de afeto perdido.
Por trás desta idéia há o convencimento de que ao invés de alimentarmos o ódio e a dor corrosiva e lancinante, possamos encontrar dentro de nós um significado para a palavra paz; e todos os seres humanos sabem o quão difícil é, ao menos às vezes, encontrar esta paz para bem viver.
Em verdade, o perdão que conduz a um estado de paz é algo capaz de levar-nos a um estado de felicidade, sim, pois o perdão, seja ele ofertado a nós por alguém, sejamos nós a dá-lo a alguém, almeja-se um pretensioso estado de felicidade.
Entendo que nossa cultura plantou o perdão entre nós para nos dar a chance de superar o desejo do ódio, da raiva que leva a “guerra”, ao conflito, pois ódios e raivas são molas propulsoras eficientes na geração de rancores e mágoas na construção de falas e dizeres que muitas vezes servem apenas para deixar naquele que diz alivio e aquele que ouve sofrimento.
Perdoar é um ato de generosidade consigo e com o outro, mas também, um ato de esquecimento; e saber esquecer, o quê e como esquecer, é tão ou mais importante do que lembrar, a memória é em si, esquecimento e, ao operarmos a memória como imaginação ao recompormos o passado, recente ou remoto. Curiosamente a memória das dores, dos ódios parece sempre estar intacta, preservada sem nenhum lastro do imaginário, fundado na forte convicção de ser a memória algo límpido. As alegrias, os momentos de pura felicidade sempre vêm turvados prazerosamente pela imaginação, repleta de meandros e possibilidades muitas vezes esquecidas.
Quando não queremos esquecer, de fato não esquecemos, porém ao perseverar a lembrança dolorosa somos compelidos ao sofrimento, ao rancor, o passado se torna presente e incômodo, e a memória um fardo, o perdão, só ele pode aliviar este peso. Se não podemos esquecer a dor, e parece ser esta uma das características mais humanas, podemos nos esforçar para dar fim ao rancor e ao ódio e a tristeza que o abarca, perdoando.
Perdoar é ato de bondade conosco e de generosidade com o outro, pois se não podemos esquecer, o perdão permite a todos a chance, sim o perdão é a  chance de sermos mais dignos e mais humanos, ao dar a nós a oportunidade do esquecimento, e dar bondosamente dividir a paz com o outro.
Se fácil fosse perdoar, mais fácil ainda seria amar, e ambas são tarefas que somente o humano pode aprender e ensinar se quisermos podemos educar para o perdão basta querer lembra-se da razão que nos faz existir.

LEITURAS

Sugestão de Leitura:

Dostoievski, F. - Crime e Castigo, editora 34

Saramago, J. - O ano da morte de Ricardo Reis, editora Cia das Letras

Duas obras básicas para nos formar como sujeito.

domingo, 27 de março de 2011

PENSO, LOGO PORTANTO, NÃO EXISTO



         É cada vez mais difícil e caro viver em nossos dias, não sou e nem desejo o passado, mas o que hoje somos é algo tão espetacularmente diferente do que foram antepassados recentes, como os nossos avós, assim como com os nossos mais remotos ascendentes.
        A dificuldade em se viver o cotidiano se dá pela quantidade de novidades que rapidamente vão sendo incorporadas as nossas vidas e tornam-se imprescindíveis assim que habitam nossas vidas. Nem eu, nenhum homem ou mulher com 35 ou mais anos, acreditou na sua infância ou juventude que uma TV pudesse e precisasse ter 80, 100, 120 canais, ou mesmo que uma pessoa comum, para se sentir segura e mais aceita em seu ambiente social, profissional e até familiar, necessitasse ter dúzias de sapatos, há um século dois ou três calçados acompanhavam a existência de um ser humano, entre o nascimento e a morte.
         Poderíamos listar aqui uma quantidade imensa de coisas que fazem parte da nossa vida e que havendo algum bom senso e equilíbrio de nossa parte poderíamos simplesmente dispensar. Falo isto não porque sou sovina ou um chato que tem medo da modernidade, é porque há, é fato, um excesso, um exagero em nossas vidas.
         Por que precisamos de coisas aos pares, as dúzias, as dezenas e as vezes as centenas? Por que precisamos nos matar de trabalhar para ter coisas efêmeras e que muitas vezes mal conseguimos usufruir ou saber ao certo qual a sua finalidade cotidiana? E antes que digam que sou ranzinza digo que a internet e o computador pessoal são de longe a maior maravilha de todas, não imagino minha vida sem eles, é admirável poder fazer o que se faz combinando estas duas coisas, mas de verdade, para além delas não consigo me empolgar com nada mais, nem carros, nem celulares nada mais, até porque a internet me abre as portas para o conhecer de coisas que eu nunca poderia imaginar antes, ela é um simples consumo, um ter, um é um de fato.
         Diante desta avalanche de novas necessidades criadas em nossas vidas, educar continua sendo o que é, algo simples, entre dois sujeitos que por serem humanos e racionais pode acontecer, o que me preocupa de fato é que em meio a tantas coisas mais importantes para se ter, para se conquistar, para fazer  parecer ser alguém melhor, muito melhor do que somos, educar-se se revela algo destituído de significado aparente, afinal diferente de tudo que possa nos fazer parecer mais, gente educada não tem um letreiro na testa. E se você acha que isto é exagero, muito provavelmente não é negro, não é gordo, e se enquadra dentro de um padrão mediano de beleza e se assim for, você ainda consegue parecer ser alguém dentro destes padrões.
         Que valor pode ter a educação em uma civilização na qual você é aquilo que parece ser, e não aquilo que é? Estou convencido que educar só é ressonante para a maioria das pessoas se ela puder se transformar em status e puder com isso agregar a seu possuidor mais e “melhores” bens, e vai daí, que não falamos em bens como conforto e dignidade, mas em bens como acúmulo puro e simples.
         Tenho para mim que não sou nem romântico e nem poético com a vida, mas uma angústia me persegue, se não pudermos passar por esta existência e deixarmos como legado a bondade, a memória de termos sidos bons, o que restará, ao menos para aqueles que amamos e dividimos nossa existência cotidiana?  Se a prioridade em existir não for esta qual será? Ter duas dúzias de sapatos, vinte calças de marca, uma dezena de bolsas de grife, o celular de última geração e sabe lá Deus o que mais possamos listar em nosso inventário. Fato é, o único meio que temos para nos tornarmos civilizados e nos humanizarmos é nos educando, para além é claro o de viver em sociedade, e o que nós estamos fazendo? Comprando um punhado de coisas banais e fúteis para que possamos parece ser como desejamos, mas não conseguimos nunca ser.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Auto-Engano e a Banalização do Mal



         A sociedade brasileira se notabiliza pelo auto-engano, a capacidade coletiva e consciente de se acreditar o que de fato não é. No último século este país foi louvado por ter um povo pacífico, um lugar sem guerras no qual o caráter nacional era antes de tudo generoso. Tal “verdade” servia bem aos propósitos de um Estado autoritário que tinha como fim negar a cidadania a sua maioria.
         Hoje tal discurso parece mesmo objeto ideológico, um verdadeiro auto-engano, pois vivemos acercados pelo medo, pela certeza que os nossos concidadãos são bárbaros a espreita, prontos a nos trucidar a primeira chance, pelas razões mais insignificantes, um tênis, um relógio, um punhado de trocados.
         Fato é, e ninguém nega, que esta é uma sociedade violenta, muito violenta no qual a vida vale pouco ou nada, a tal ponto que banalizamos o mal e suas conseqüências entre nós. No limite, todos acreditam que boa parte dos nossos problemas são partes constitutivas de nós, ou melhor, de nossa sociedade.
         Esta crença reforça um novo auto-engano, de pior e a mais grave conseqüência para todos, qual seja: queremos reformar a lei, o aparato legal sem antes levarmos em conta os seguintes pontos, objeto central de todo auto-engano que hoje vivemos.
         Primeiro: a polícia no Brasil, para além de ser militarizada é uma instituição desacreditada, a maioria da população a vê, como instrumento da barbárie e não como parte legítima na defesa do cidadão.
         Segundo: as prisões são administradas pelo crime e não pelo Estado, assim sendo apenas se transfere a gestão do mal, para um espaço seguro que é o cárcere e não as ruas.
         Terceiro: ressuscitamos o esquadrão da morte, agora disfarçada de milícia urbana, que serve como ante-sala para o fim do estado de direito na sociedade, já que cidadãos comuns se armam e assumem funções de delegação pública.
         Quarto: o sistema judiciário, não precisa de leis, precisa ser confiável, ágil e responsável.
         Quinto: Auto-Engano é acreditar que se não atacarmos estes quatro pontos elementares, um punhado de novas leis, sejam elas de que tipo for, da redução da menoridade penal á adoção da pena capital nossos problemas serão resolvidos ou minimizados.
         Por fim, é sempre bom lembrar que sociedades que se regulam por processos conscientes de auto-engano, em algum momento acabam se esfacelando, mais que um tecido social frágil, fica-se querendo atacar os efeitos e nunca as causas. O auto-engano produz a desesperança por mover uma sociedade na direção errada, na qual as responsabilidades, os deveres e a consciência são sempre problema ou pertencem a outro, e nunca si.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Tolstói, Cortázar e Nós


Em Anna Karênina Tolstói afirma, Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira.  Em tempos tão confusos e conturbados, pais e mães correm e apontam para todos os lados para saber como educar seus filhos, e assim, como tudo neste mundo regido pelo capital, educar é um negócio, e tem custos, há manuais e especialistas para ensinar a ser pai e mãe.
Em verdade não são nem os custos e nem os especialistas que são o problema, até porque somos livres para gastar e prover a vida como bem desejamos ou como bem podemos fazê-lo, o problema na verdade é querer encontrar respostas ou caminhos para aquilo que na verdade está não fora de nós, mas sim dentro de nós. Explico.
A paternidade e a maternidade planejada, ou não, requer e exige de cada homem e de cada mulher uma reflexão profunda e séria, os filhos não são um projeto, ou um ser sob o qual se possa  depositar expectativas, vontades e desejos que somente a nós pertencem. A primeira coisa que escapa aos pais é que seus filhos são humanos e assim eles vivem assim eles serão para todo o sempre, desta forma, filhos que erram filhos que não aprendem, filhos que brigam, não são nada além de humanas pessoas, sujeitos normais.
A infelicidade e a insegurança da qual se revestem a paternidade e maternidade hoje, se assemelham mais a incapacidade manifesta de alguns pais e algumas mães em reconhecer que a educação dos filhos demanda um quê de preceitos, um tanto em desuso em nossas vidas, algo como bom senso e equilíbrio; esses, quando dosados a uma vida com rotinas e valores claros facilitam um tanto o caminho que nos leva em direção à felicidade de se ter uma boa família, e isto está dentro de cada um nós.
Por razões que não caberiam aqui neste artigo discutir, os pais começaram a acreditar que para fora do corpo familiar se poderia encontrar mais que aliados da família, os pais buscaram na escola um cúmplice dos seus projetos e da educação de seus filhos, quando na verdade nada pode  substituir pai e mãe na educação dos filhos, nada pode valer mais que a presença viva e intensa de sujeitos capazes de responderem pela sua prole.
A infelicidade da qual fala Tolstói é particular porque a dor sempre parece ser única, somente nossa, enquanto a felicidade se apresenta como um bem universalizado, tendo em comum amor e devoção dosados pelo bom senso. A infelicidade tem ao menos algo que é igual em todas as famílias, a sensação profunda de uma ingratidão dos filhos para com os pais, porque todos os pais, sem exceção, diante da infelicidade familiar tomam para si a certeza da ingratidão dos filhos.
Como afirmou Julio Cortázar, os filhos não são ingratos, eles apenas retribuem o que nós, como pais, oferecemos a eles, se formos omissos teremos deles silêncio, se dermos uma proteção desmedida, teremos em retribuição filhos que errarão mais, se damos um amor incondicional e cego em troca teremos um sujeito cego de responsabilidade.
A infelicidade de Tolstoi na família não é diferente da ingratidão atestada por Cortázar, elas são parte de um mesmo todo, pois não basta ter amor ou vontade para ser pai e mãe, é preciso algo mais e maior, é preciso ser adulto o suficiente para transformar a continuação de nós, a parte mais fina de nós em sujeitos, em seres humanizados e neste ponto não são instintos que podem nos guiar ou ajudar, mas, somente a maturidade crítica que nos distingue de todos os demais seres, pois buscamos, ou assim deveríamos buscar educar para formar sujeitos que tenham na bondade o seu princípio e seu fim.

sexta-feira, 11 de março de 2011

A Alegria do Ócio


         Por que os filhos crescem? Para que nós, pais, possamos saber que estamos envelhecendo. E se alguns de nós lutamos para não querer ter ciência desta obviedade, tudo parece ficar muito claro quando o filho termina a sua vida escolar.
         O fim da escola para os adolescentes é a ante-sala da vida adulta, a preparação para um mundo novo e permanente, no qual se exige, entre tantas outras coisas, responsabilidade e capacidade de tomar decisões.
         E é neste momento que garotas e garotos são “obrigados” a escolher o que desejarão fazer pelo resto de suas vidas! A pergunta que mais se ouve é: “o que você vai fazer agora?” O que significa perguntar aos filhos da classe média para que carreira irão prestar vestibular.
         A maioria dos pais não pergunta a si e aos seus filhos se eles são maduros o suficiente para escolherem algo que implicará de forma tão decisiva em seu futuro, e creio que esta pergunta não é feita porque tanto pai como mãe tem um medo profundo de ouvir um sonoro NÃO SEI!
         Seria razoável imaginar que depois de anos de escolaridade, mas ainda com 16, 17 anos, houvesseclareza suficiente para se saber ao certo o que fazer pelo resto da vida, mas isto não ocorre na maioria das famílias, e na própria escola, que passa pelo menos três anos condicionando o mantra, vestibular, em todos os adolescentes.
         Como educador e como pai eu não espero que os adolescentes saibam ao final da escola o que fazer, por sinal gostaria imensamente que a maioria deles não soubesse mesmo o que fazer da vida e descobrisse que o ócio, assim como fala o sociólogo italiano Domenico de Masi, um deleite inteligente, pode ser tão útil como a vida ocupada que a família e a sociedade pretendem nos oferecer.
         Em muitos países, ao final do ciclo escolar, as famílias e a própria escola estimulam os jovens a viajar, a viver novas experiências que ajudem a revelar do que é feita a vida adulta, pois estes jovens saem para conhecer novos lugares, novas culturas e para se manter viajando por seis, oito, doze meses, precisam trabalhar em pequenas funções temporárias.
         Descobrir do que é feito este mundo e as pessoas que nele habitam desmistifica a ingenuidade e põe a mostra como o mundo adulto lida com a sobrevivência. Ao invés de ficar horas a fio relendo fórmulas e regras gramaticais, os jovens quando saem de casa por um tempo aprendem, assim como na escola, as fórmulas e regras que regem a vida cotidiana. Aprender novas línguas, conhecer diferentes culturas, fazer contas para comer, para se locomover, negociar com o outro, enfim, algumas aulas de vida.
         Os pais hoje tem o temor que seus filhos cresçam,  tratam seus filhos em um complexo de medo, proteção e omissão. Medo do mundo exterior e das variadas ofertas propiciadas a ele. Uma proteção excessiva na qual se deseja que os filhos passem mais tempo na casa dos pais, cada vez menos se estimula que eles saiam de casa antes do casamento. E a contradição da omissão em meio à proteção, a omissão na verdade se dá reforçando o caráter individualista apregoado pela sociedade, no afã de garantir um sujeito cada vez mais narcisista.
         O ócio ao invés de se tornar algo alegre neste contexto, se torna parte do medo familiar, pensar que um filho não saiba ao certo o que fazer, como fazer e porque fazer da vida ao final da escola impõe aos pais uma sensação de fracasso e medo sobre o futuro, quando em verdade o futuro pertence, e é, uma construção dos filhos e não dos pais. O medo e a proteção desmedida impedem que os filhos possam correr os riscos necessários, que possam aprender para muito além da família e da escola. Aprender por sua conta e risco, aprender com o mundo que o rodeia.
         A classe média  não consegue se libertar da sanha do Brasil Imperial de ter um filho doutor a qualquer custo, e haja pressão sobre os filhos para serem alguém na vida, e haja cobrança para fazer vestibular, seja lá para o que for, mas que se faça, nada de pensar em alternativas, nada de pensar em um tempo de ociosidade, nada disso, o tempo urge, é preciso fazer algo, não importa o que, mas faça! Afinal estamos aqui para quê? Para ganhar dinheiro e só, ou também para sermos felizes? Alguma vez você, como pai e mãe,  perguntou isto ao seu filho?

sexta-feira, 4 de março de 2011

QUASE NADA, APENAS ATITUDE

A chegada do carnaval sempre traz à baila a forma como a TV aborda a festa e no que se transformou na manifestação pagã mais importante da vida cultural brasileira. De forma geral com a liberação dos costumes o carnaval acaba servindo, ao menos no centro sul do país, para revelar corpos e elevar o grau de erotismo a pontos inimagináveis em outras culturas.
         Em verdade está, digamos, aceitação da erotização extremada do carnaval se coaduna com outras manifestações que compõe a nossa vida “cultural” no decorrer do ano. Com uma abundância de grupos musicais altamente sensuais, que nascem e morrem com incrível rapidez, nos “acostumamos” a ver corpos adultos e bem formados impondo gestos e insinuando atos enquanto repetem refrões maliciosos em harmonias musicais empobrecidas.
         Curiosamente estes grupos acabam tendo uma grande influência sobre o público infantil, e o que se vê são meninas, principalmente meninas, repetindo gestos e trejeitos em uma agressão a sua própria condição infantil, afinal crianças, meninas de 9, 10, 11 anos ou até menos, são sujeitos em formação seja no seu caráter seja na sua psique, e são incapazes de dimensionar a vulgaridade quando disfarçada em estética ou objeto cultural.
         Quando chega o carnaval, como uma síntese do ano, somos brindados com sinopses deste movimento erótico extremado, a própria sociedade incorporou isto como normal. A maior anomalia não são as crianças que desfilam nas escolas, que enclausuradas em suas alas mal sabendo o que acontece metros à frente, muito pior são aquelas cenas selecionadas pela TV em desfiles e bailes, fazendo crer que o carnaval é o encontro de certa estética minimalista com o desejo sexual.
         Se nos permitimos ter manifestações culturais como esta é por ser parte de nós e da nossa identidade, a TV faz as suas escolhas sustentadas nas suas expectativas comerciais, assim como as gravadoras que nos impõe seus grupos com suas coreografias. Pensar em responsabilidade social ou educativa é tolice, tudo se dá antes de qualquer coisa como uma necessidade comercial.
         Os meios de comunicação de massa transformam tudo em entretenimento, acreditar que tenham preocupação com questões da erotização e sua influência sobre a formação e a educação das crianças é fantasiar a realidade. Creio sim, que o grande problema está na família, pai e mãe omissos incapacitados de dizer não para seus filhos: “não vai assistir este programa!” não vou comprar tal CD!” e assim por diante, estabelecendo claramente o que desejam para formação de seus filhos.
         Colocar sobre os meios de comunicação de massa  toda a responsabilidade sobre erotização do carnaval e outras manifestações culturais, apenas referenda que a família é impotente e/ou incompetente para dizer aos seus membros , em especial seus filhos, o que ver e ouvir.
         Em uma grande inversão de valores, os pais acorrem a escola onde estudam seus filhos com as queixas mais descabidas e as demandas mais protetoras, na proporção inversa que abandonam seus filhos diante dos meios de comunicação de massa com enorme passividade e indiferença.
         Se as classes sociais mais pobres foram privadas da escola, e, portanto parecem mais disponíveis as manipulações da TV, até por terem nela um dos seus únicos meios de lazer, as classes médias disponibilizam seus filhos muito mais pelo silêncio e a cegueira, pelo não saber ao certo o que vêem e ouvem, do que por outra razão. Ao desejar que a televisão e os demais meios de comunicação se tornem menos erotizados, mais educativos e menos apelativos é preciso que haja reciprocidade do outro lado, que aquele que liga a TV ou compra um CD saiba exatamente o que deseja oferecer como objeto cultural aos seus filhos.
         É quase nada, uma mera questão de atitude dos pais saberem que tipo de educação quer eles oferecer aos seus filhos, é quase nada.